domingo, 15 de julho de 2007

Olhos Castanhos Molhados



Não te peço muito mais do que isto,
quero que venhas chorar comigo, encosta-te a mim,
abraça-me o corpo quieto pelo sofrer, para o sangue em alvoroso,
depois beija-me o cabelo e a testa e a boca, envolve-me em teus braços
e chora comigo todas as lágrimas que se entalam e acumulam nos meus olhos.

Os meus olhos já são de um castanho molhado, tempestuoso...

Basta uma Lágrima


E choro calada, talvez porque o meu riso afogado de alegria premeditada me encha o peito de ar estragado, depois fecho os olhos só para sentir que o ar que respiro vale a pena e deixo de ser o que sou para passar a ser eu e mergulho nesse mar de lágrimas. Não sei nadar... Não aqui, sem pé, sem espaço onde repousar o corpo já gasto pelo pó do caminho que percorro.
Basta uma lágrimas, mesmo que pareça gasta, basta uma lágrima vertida para esvaziar a alma e a vida e mesmo que parece impossível, uma lágrima esconde o nosso mundo inteiro de dor deste mundo pequenino que habitamos mesmo não querendo.
Basta uma lágrima para que me não afogue neste mar sem horizonte...

Desespero (lágrimas a dançar na alma)


Esta vontade de gritar que me sufoca e me desatina, esta vontade de esconder a dor para lá dos poros da pele, de me cortar e ver o sangue a correr sobre este chão que não conheço e depois despir o corpo do negro dos dias e cobrir-me de vazio e desespero e desejo de morte.

Se conseguisses ouvir-me este silêncio descomunal, esta espera ancestral a talhar-me de loucura e depois esta vontade de descer ao abismo ou subir no desânimo e morar por lá, morder os dedos até desenhar com o sangue a tua imagem... são doses a mais de sofrimento, são doses a mais de dores.

sábado, 14 de julho de 2007

Baile de Lágrimas


Só umas gotas...
só uns sabores de mil cores a cobrirem-me toda, o sal a escorrer na minha face, a boca em silêncio perdidas nas palavras que não se dizem...
Depois as melodias e os pares de lágrimas que escorrem do par de Olhos e vertem-se as dores, num abandono, num gemido em silêncio, numa falta incompreendida, numa saudade que mata...

Só umas gotas...
Só muitas lágrimas...
Só o rosto coberto de melodias desavindas e o coração arrancado do peito de proposito.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Lágrimas por mim choradas...




... e nada restaria dos meus passos senao a breve e ligeira plenitude do sentir-te em mim. Sempre!

Lágrima de Sangue



Chorai, chorai homens e mulheres de coração vazio.
Chorai as minhas lágrimas frias e o cansaço dos dias,
chorai os meus desamores,
os perdidos pudores que quebram os meus vidros,
chorai, oh por Deus chorai, acompanhem a
minha dor nesta melodia...

Bailam as lágrimas


Batem devagar sobre a minha alma, formam melodias singulares com tons de desespero. Começam calmas para terminar tumultuosas, caem como gotas de orvalho nas madrugadas, chuva miudinha nos dias de Outono. Ás vezes chegam cautelosas, de mansinho, para quebrar o ritmo da face mas depois tornam-se violentas, despertas para esse espaço súbtil preenchido pelo sofrimento. Caem silenciosas às vezes, mas os gritos da alma não se podem conter quando elas já se amontoam nessas danças tão puras como sofridas.
Ás vezes cobrem o rosto para se esconderem depois nos cantos da boca, salgadas como as águas do mar, tão cheias, tão cheias de tudo que depois de as soltar fico-me vazia.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Sangro a Dor


"Se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos"

Estou acordada à mais de duas horas, sinto no peito a rebentar uma dor maior que me fecha os poros da pele e quase me sufoca a garganta, levanto-me devagar, perco o norte, agarro-me à cabeça e começo a caminhar até à casa de banho. Dói-me o sangue nas veias, corre em alvoroço, sinto as mãos tremerem-me e a cabeça latejar, pego na lâmina e corto-me pela primeira vez, corto-me a pele do braço esquerdo, antes despido agora vestido de sangue, vermelho tão vivo como é viva a tristeza que o enaltece. Arrastando os pés vou até ao quarto sangrando, vejo o sangue correr-me pelo braço e deixo-o correr, gosto de ver assim o meu sangue a sair-me do corpo, sentir a dor a aliviar. Tapo as ferias com uma ligadura e deito-me de novo, amanhã é um novo dia.

"se ao menos esta dor visse
se ela saltasse fora da garganta
como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse"

Está calor, o sol rasga a janela e poisa nas minhas pestanas, acordo devagar, no calor da manhã adormeço as lembranças que não tenho, a recordação do que foi e não quero lembrar, visto uma camisola de manga comprida para tapar a ligadura, não quero que ninguém veja. Encosto a cabeça ao espelho da casa de banho e deixo-me chorar baixinho, queria gritar mas o silêncio da casa, as paredes mudas, fazem-me cair no chão encostada ao lavatório, agarro os joelhos e choro até a minha mãe me chamar para o pequeno almoço.

"se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir saliva fora
sujar a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre e tem o direito de não sofrer "

De face lavada desponto-lhe um sorriso e sento-me na mesa, não tenho fome, não quero comer nada, a minha mãe prepara-me o pequeno-almoço e vai para o quarto mudar-se de roupa, enquanto isso despejo o café na banca da louça e deito o pão ao lixo, levanto-me e pegando na mochila já despeço-me da casa.
Entro no autocarro, os amigos que não tenho conversam e riem, eu sento-me a um canto no fundo do autocarro e deixo-me ficar, vejo a paisagem passar à minha frente à velocidade estonteante de um ou dois pestanejares, pestanejo tudo e muito e deixo-me ficar. Já todos saíram do autocarro e eu ainda aqui estou, à quem me julgue anormal, às vezes chamam-me maluca, gosto apenas de ver o autocarro vazio como a minha alma e chorar um pouco sem ninguém ver.

"se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas
se menos essa dor sangrasse..."

As aulas da manhã não foram grande coisa, no intervalo ainda tive tempo de fazer mais um corte no meu braço, dói agora, arde-me tanto mas nunca conseguirei comparar esta dor que sinto agora à dor que reina na minha alma e me quebra a verdade, me destrói a firmeza e me deixa assim tão frágil. Quando me corto a vida passa sobre mim em forma de imagens, de gritos, de odores, de receios e medos, quando me corto não há quem me ajude e o silêncio mouco das palavras mudas que me não dizem fazem com que me apeteça cada vez mais cortar-me e esconder-me destes que me não entendem.
Curvada sobre o rio penso a vida, destapo as feridas e enquanto as vejo choro, este desejo imenso de não as ter feito sempre menor ao desejo absurdo de as ter sempre. Repenso a vida que deixou de fazer sentido, não entendo porquê, isso é importante? É importante eu entender? Apenas sei que sofro, que me dói tanto, que me é impossível calar este sofrimento por mais que tente.

Arranho as Horas

Arranho as horas enquanto adormece o relógio, tic-tac, e rodam os ponteiros em sintonia cravando-me de medos e receios. Arranho as horas e o tempo que as detém e antes que se adormeça o relógio por inteiro eu cravo-me os medos e arranho-me nas horas e deixo-me engolir pelo tempo enorme que me tem.
Arranho...
Arranho e corto e deixo-me morrer.
Arranho as horas com as unhas da vida, lanço-me contra a parede de sangue que se extingue, embato violentamente contra as verdades e tombo pelo tempo abaixo como uma rocha arrastada pelas águas.

Arranho...
Arranho-me a pele nas horas a descoberto, sangro este papel enquanto escrevo...

terça-feira, 3 de julho de 2007

(Na) Tua Morte (entre lágrimas)


Não entendo porque morreste, porquê? Nem entendo porque saíste disparado da esplanada para depois pegares na mota e te atirares contra a frente de um camião, mesmo ali na frente de todos os teus amigos. Não entendo! Eu corri… corri o que pude e o que não pude e nadei no rio de sangue ao teu redor só para te ouvir dizer que me amavas e sentir-te depois decair no meu colo comigo já a gritar aos céus e às terras o teu nome.

“Um dia quando formos velhos havemos de ter uma rede para dormir nas noites de Verão!”, comprei uma rede e coloquei-a no meu jardim, passo aqui algumas noites, observo todas as estrelas e as constelações que me ensinaste. Observo às vezes o teu rosto nelas ou a tua mão estendida para me alcançar num carinho. Tenho pena de não ter conseguido sentir os teus braços a envolver-me numa noite de Verão na nossa rede. Tenho tanta pena de não conseguir ter agora o teu ombro para chorar o meu desespero.

Mais do que a perda o que mais me custa é a falta. Nem imaginas como é precisar de ligar a alguém e ver o teu nome sempre na lista telefónica, passar no corredor e ver os desenhos que me fazias, entrar no quarto e mirar as tuas fotografias.

Amo-te tanto! Mesmo sabendo que te foste, foste para o lado de lá, um dia havemos de nos encontrar e eu dar-te-ei o estalo que ficou aqui guardado seguido de uma carrada de beijos que também estão em mim para ti.

Cinzas de um Fogo ainda por Apagar

Porque morremos nós? Não devíamos ter uma vida eterna ou pelo menos algo onde nos encontrem vivos mesmo depois da morte? Eu tenho tanta coisa onde te encontro vivo que nem sei se faz algum sentido falar na tua morte. Estás no quarto que partilhamos, na roupa que compramos juntos, na comida que não comeste, nas paredes desta casa que te espera ainda, uma anunciação de vida mais rápida do que a própria morte que te levou para longe de mim. Estás no rio onde nadaste, nas águas que não voltaram nem pararam e te conduziram ao mar, no sal das lágrimas que me percorrem o rosto, nas conchas que apanhamos depois da nossa primeira noite de amor. Estás até no coração que me bate dentro do peito, descontrolado, desfeito, tresloucado por tanto te amar e não te puder tocar. Estás em tudo o que preciso, em tudo o que me mantém viva, no chão que pisamos enquanto caminhamos rumo a esse futuro tão incerto, demasiado incerto para acreditar nele. Estás-me assim amor, em todos os passos, nos longínquos cansaços que me fazem vacilar, nos sorrisos prematuros, nos carinhos não seguros que ainda carrego para te entregar.

Porque morreste tu? Não sei se deva acreditar sequer na tua morte, ainda vives dentro e fora de mim, ainda o teu corpo se passeia sobre os meus espaços em volta, sobre os meus passos cá dentro, ainda vives, ainda o teu coração bate em cada instante, na brisa do vento que passa, no rosto que vejo nas fotografias espalhadas pela casa, em tudo meu amor, em tudo e em nada e na aragem revoltada que me faz pulsar o sangue.

Quisera eu vencer a tua partida com um sorriso no rosto mas levaste contigo todos os meus sorrisos. Rasgo a raiva, rasgo o sangue, rasgo o coração de ódio, permaneço atada a ti neste tempo em que me encontro. Paro o mundo todo, paro a vida só para te ver bailar entre os meus sonhos, numa presença intensa que te torna eterno. Deixo-me cair sobre este chão que pisaste, deixo-me enrolar no meu próprio corpo que tocaste e deixo-me ficar com as lágrimas nos olhos, deixo-me permanecer perene com o rosto cravado pela dor, com o peito furado pelo sofrimento. Deixo-me…

Porque vivemos?