sábado, 28 de julho de 2007

Voz


Foi a tua voz, foi o timbre fantasioso da tua voz e todo aquele tango que dançamos com as palavras interdictas, depois foi a chama que se acendeu devagar sobre a vela e foram momentos que despimos palavra após palavra, silêncio após silêncio, foi a praia dos receios e dos gostos repetidos desnuda, foi o tempo pouco de nos ouvirmos para o tanto que sentimos. Foi a tua voz, o silêncio repetido e a falta que me fez quando o sol nasceu e o desejo pertinente e inquietante de te ligar, acordar-te, só para ouvir-te. Fosse o que fosse que dissesses haveriam de existir mil e um sinónimos para as tuas palavras e as sílabas seriam pau-sa-da-men-te soletradas pela tua boca, perfeita sinfonia, perfeito timbre que inundou o meu peito de um ar respirável...
Foi a tua voz a gritar-me um sentimento renovado enquanto o coração se afastava com receio, foi tudo isto em um momento que me fez voltar a sentir-me vida, a tua voz na minha pele faz milagres.
Foi a tua Voz a soar cada vez mais alto e a sobrepor-se ao silêncio que pernoitava no meu colo.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Despedida (uma palavra?)



Não há despedidas,
não há sorrisos que cheguem para acalmar a tristeza
e estas lágrimas que restam são semelhantes à dor de uma perda.
Gasta-se tudo numa despedida,
até as lágrimas às vezes se gastam e o que resta é o sofrimento
que em forma de vazio queima no coração
e depois o último aceno que se vê repetidamente,
o último adeus,
a derradeira e última despedida, múltipla,
que sempre há-de viver dentro da gente
como uma má recordação que dura sempre...

Em Queda Livre

Eu tentei esvaziar o sangue que me circula nas veias, tentei abrir buracos tão profundos que nem o céu fosse o limite nem a terra fosse o ponto de partida. Os tambores já batiam fortes anunciando a boa-nova, os sinos tocavam as notas de um suicídio premeditado e nunca quebradiço. Tu esperavas deliciado que ao som do pecado o meu corpo caísse e num canto, vagaroso como só tu sabes, assobiaste a derrota antes de me deixares pestanejar e viste os meus olhos pararem e os meus joelhos baterem velozmente contra o chão, depois esperaste mais um pouco e sentiste na boca o sabor doce da vitória enquanto eu já me gastava na frieza desse chão e do corpo nu de esperança.
Uma morte assim pausada, caindo devagar com o amanhecer, a morte assim sonhada, premeditada na tua cabeça. Tudo estava a correr como tu querias, eu jamais me ergueria e tu jamais sairias desse canto tão longínquo que te encolhia nos rebordos da minha alma redonda.
Lembrança...

Como Morta


Quiseram os homens tornar a terra um céu azul claro onde voar, quiseram desenhar-lhe os contornos com as penas a sacudir as lágrimas mas não lhes restava imaginação suficiente, tinham já morto toda a imaginação em críticas, ódios e crendices absurdas. Nem a Nossa Terra do Nunca conseguiam imaginar, nem um mundo florido, nem um corpo para abraçar, uma boca para beijar, uma razão de vida.
Quiseram os homens tornar a terra um mundo de sonhos não contidos mas já não lhes sobravam sonhos, só os tidos, só lhes restava esta contínua e permanente derrota de não terem nada onde se agarrarem.
Quiseram os homens eternizar a Terra mas já a tinham morto pelo silêncio...

Os versos que não escrevi


Decidi-me a escrever-te uns versos, não por um motivo especial mas porque as palavras nunca se esgotam nas minhas mãos e a minha alma nem sempre controla a emoção ao ponto de não tas revelar como fotografias de espressão triste.
Os versos que te escrevo quisera eu que em jubilo cantassem ao teu ouvido as mais belas melodias e que no teu peito pernoitassem as palavras nunca antes proferidas, antes da manhã se curvar sobre o teu rosto um poema deixa que te escreva ainda mas não sei ser poeta e detenho-me nos versos calados que um dia te escreverei.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Por favor...










Ouve lá já me não encontro quando me procuro só em ti me acho, tu és-me mais do que eu própria me sou e agora que preciso de mim importaste de me dar um bocadinho?



Por favor...

Teorema da Solidão


E quanto mais só estou mais só me pareço e cravam-se no peito os espinhos da solidão. Quanto mais só caminho mais vazia é a caminhada pelas entre-linhas de uns versos bonitos que não soube escrever. E vou assim com o coração mais só que a vida já gasta que tenho tido, dentro de mim dançam as lágrimas na alma, um, dois, três, um passo de cada vez, uma verdade soalheira.
Já só me encontro com a solidão profunda, não dou um passo sem a ver à minha frente e depois cheia de solidão me caio e me rendo aos pés dela .
Teorema da Solidão com o vazio e o esgotamento aliados, cá dentro do coração a morte anunciada que se principia com as chuvas do Verão, cá dentro, tão dentro que nem consigo encontrar motivo para me ser sem ser só.

terça-feira, 24 de julho de 2007

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SILÊNCIO

Caiu



Caiu, caiu sobre a tua campa como se sofresses tanto ou mais do que eu, depois despiu-se de tudo e deixou-se caído para assim permanecer. Ficou, gastou as penas sobre a pedra furiosa e fria e deixou-se ficar então enquanto o manto da noite me invadia, eu de joelhos à sua frente, com os olhos cobertos de lágrimas, fingi que conseguia suportar o peso da dor que também me abraçava e perdi as raízes que me mantinham de pé, perdi tudo... ali.
Caí também enquanto não soube alertar as minhas veias para o veneno que as consumia e fui-me dor com os dias, sempre. Fui-me dor com o que não mais pude ter. Tu... Ele Caído e eu caída, tudo caiu por ti.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Lágrimas Negras





Um grito desfocado da alma,
um sussurro inválido debaixo de pena de morte,
um silêncio encontrado e perfurado pelo suor no eco inaugural do coração.




Azrael




Anjo da Morte ou "aquele que Deus ajuda"...

Oh Azrael quantas das minhas lágrimas
não afogaram já as penas das tuas asas,
quanto do meu pesar não enrugou o teu coração sombrio,
quanta dor...
quanto sofrimento...
quanto choro não ouviste tu às alturas da minha solidão.
...



Quanta morte já me sussurra aos ouvidos cântigos de despedida,
Azrael...
... quanta morte!